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Varíola bovina tem casos confirmados em vários estados brasileiros, diz Biológico

A varíola bovina, atualmente endêmica no Brasil, tem casos confirmados nos estados do Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, segundo dados do Laboratório de Viroses de Bovídeos do Instituto Biológico (IB-APTA), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Trata-se de doença infecto-contagiosa, causada pelo vírus vaccinia, que é caracterizada por lesões cutâneas em vacas lactentes, bezerros e no homem. 
Os primeiros casos detectados na década de 1990, diz a pesquisadora do IB Liria Hiromi Okuda. “Os roedores são apontados como possíveis reservatórios do vírus vaccinia, pois, já foi detectada a presença desse agente em roedores silvestres na floresta amazônica e paulista, na década de 60. Entretanto, se desconhece o papel de outras espécies domésticas e silvestres que poderiam atuar como reservatórios, garantindo a manutenção do vírus na natureza.”
De acordo com Okuda, a varíola bovina acarreta problemas para o setor produtivo, principalmente a cadeia produtiva de leite: afeta o comércio interno e externo (por se tratar de doença vesicular, as propriedades são interditadas e fica vetada a comercialização dos animais e subprodutos até a confirmação do diagnóstico laboratorial); queda na produção e produtividade devido à dificuldade em ordenhar e amamentar os bezerros; mastites; e custos com tratamentos dos animais acometidos.
Casos de varíola bovina são comumente associados a propriedades não tecnificadas e que não adotam medidas de biossegurança, propiciando a manutenção do vírus no ambiente, explica a pesquisadora. A transmissão ocorre por contato direto: o bezerro adquire a infecção ao mamar e as vacas ou o homem se infectam na ordenha- a ordenha manual, associada ao tipo de manejo (semi-intensivo ou intensivo), é o principal fator de risco na disseminação da doença no rebanho.
Equipamentos de ordenha, bem como fômites e caminhão do leite, também podem atuar como veiculadores, diz Okuda. Em alguns casos, a transmissão da doença entre rebanhos é atribuída ao próprio ordenhador, que se estiver infectado acaba carreando o agente para a propriedade vizinha ou vice-versa.

Origem controversa
A origem do vírus vaccinia é controversa, pois se supõe que seja derivado do cowpoxvirus e que, durante o processo de produção da vacina, tenha sofrido mutações, observa a pesquisadora do IB. “A varíola bovina, classicamente, é causada pelo cowpoxvirus, presente nos países da Europa, região oeste da União Soviética e na Ásia (regiões central e norte), acometendo bovinos, felinos e eventualmente o homem. Os roedores silvestres são incriminados como reservatórios do virus.”
O cowpoxvirus foi, inicialmente, selecionado para a produção da vacina contra a varíola humana - prossegue Okuda - pois provocava uma reação local branda, mas imunogênica, que conferia proteção contra o vírus da varíola humana, doença esta que era fatal e chegou a dizimar nações. “Posteriormente, passou-se a imunizar a população mundial com o vírus vaccinia, até a completa erradicação da varíola humana, que ocorreu na década de 80. Após a erradicação da varíola humana, essa estirpe viral foi destruída dos laboratórios no mundo, ficando somente os Estados Unidos e União Soviética como detentores dessa estirpe, devido ao risco dessa ser usada como arma biológica.”

Sinais clínicos
Nos animais e indivíduos infectados, ocorre inicialmente a formação de uma mácula que evolui para pápula e, após dois a três dias, para a presença de pústulas e crostas, que são bastante resistentes no ambiente, mesmo secas (acima de um ano), diz Okuda. “Nas vacas lactentes, as lesões estão localizadas nos tetos e eventualmente, no úbere e, em bezerros, no focinho, boca e gengiva. Em humanos, localiza-se principalmente na mão e pode passar para o antebraço e rosto.”
A pesquisadora ressalta que o vírus não penetra em pele íntegra, sendo necessário um ferimento, uma solução de continuidade para que se estabeleça a infecção. “As lesões são benignas e localizadas; a cura ocorre entre sete e 10 dias, mas em humanos pode estender por meses. A severidade da doença depende da condição imunológica do indivíduo. Infecções intercorrentes ou imunossupressoras facilitam a instalação e o agravamento da enfermidade.”
Os sinais clínicos observados são lesões nos tetos com sensibilidade ao toque, dificultando a ordenha, explica Okuda. Tais lesões “servem como porta de entrada para outros patógenos, sendo comumente relatados casos de mastite. Em humanos, pode ocorrer reação sistêmica como náusea, febre e linfoadenopatia (aumento dos linfonodos), acarretando em licenças-saúde e tratamento”.
Tanto nos animais quanto no homem, a imunidade é duradoura (por anos), não sendo observados casos reincidentes, diz a pesquisadora.

Diagnóstico
O diagnóstico conclusivo da varíola bovina é sempre laboratorial, afirma Okuda. “Por se enquadrar nas doenças confundíveis com febre aftosa, o serviço veterinário oficial deve ser notificado”. Este procederá à colheita e encaminhará a remessa do material, primeiramente, para o LANAGRO, responsável pelo diagnóstico de febre aftosa e estomatite vesicular. “Após resultado negativo dessas duas enfermidades é que outros laboratórios poderão realizar o diferencial de doenças vesiculares, como o laboratório de Viroses de Bovídeos do Instituto Biológico (LVB/IB).”
A pesquisadora recomenda a colheita de soro e epitélio para análise criteriosa do diagnóstico. “A pesquisa de anticorpos específicos contra o vírus da varíola bovina é feito por virusneutralização e tem por finalidade avaliar se o animal entrou em contato com esse agente. Resultados negativos devem ser interpretados com cautela, pois, o animal pode estar em fase de incubação, não sendo possível detectar ainda os anticorpos neutralizantes. Nesses casos, recomenda-se nova colheita de soro, após 20 dias da primeira análise (avaliar a soroconversão).”
A detecção do vírus pode ser realizada por isolamento viral, microscopia eletrônica, PCR, RFLP e PCR em tempo real, informa Okuda, ressaltando que somente as técnicas moleculares confirmarão o agente envolvido na varíola bovina: se cowpoxvirus ou vaccinia.
A pesquisadora do IB enfatiza que a participação dos veterinários do serviço oficial têm sido fundamental para a confirmação dos casos de varíola bovina devido ao pronto atendimento ao foco e colheita adequada do material para o diagnóstico.
Okuda sugere que se pesquisem outros agentes envolvidos nos quadros de doença vesicular, quando são descartados a febre aftosa e estomatite vesicular: Pseudovariola bovina ou nódulo dos ordenhadores; Mamilite herpética bovina; IBR/IPV; BVD e Febre catarral maligna.

Tratamento
A pesquisadora do IB informa que não existe tratamento específico e nem vacina contra a varíola bovina. “Somente terapia de suporte.” Para o tratamento das lesões, ela indica a aplicação de solução iodada glicerinada 10% ou permanganato de potássio 3%. Deve aguardar-se, no mínimo, 2 horas pós-tratamento para os bezerros serem amamentados, diz. “Antibioticoterapia é recomendado para prevenir infecções secundárias.”
Na profilaxia e controle, Okuda recomenda que os animais acometidos sejam imediatamente isolados dos sadios; luvas sejam usadas durante o tratamento e o manejo com os animais ou indivíduos acometidos; as vacas infectadas sejam ordenhadas no final para evitar contaminação dos utensílios da ordenha e a transmissão para os suscetíveis; medidas de desinfecção dos tetos pré e pós-ordenha e dos utensílios sejam tomadas para prevenção e controle de doenças - o hipoclorito de sódio (1 a 15% de cloro ativo) e o iodo são desinfetantes eficazes e de baixo custo; e sejam usados produtos a base de derivados fenólicos, iodo ou cal para desinfecção do ambiente. “Em alguns casos relata-se que o caminhão do leite foi o responsável pela disseminação da varíola bovina entre propriedades, demonstrando a importância da desinfecção de veículos antes de sair da fazenda.”
Okuda conclui que a adoção de medidas de biossegurança, como quarentena (ao introduzir animais novos não colocar no mesmo piquete dos animais da propriedade), restrição de pessoas e veículos, proteção do alimento e água fornecidos aos animais (não atrair roedores, por exemplo), uso de luvas e currais sempre limpos, é importante para evitar a introdução de doenças no rebanho e contaminação do ambiente.
Outras informações podem ser obtidas com a pesquisadora pelo e-mail okuda@biologico.sp.gov.br

Assessoria de Comunicação da APTA
José Venâncio de Resende
(11) 5067-0424

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