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Um plano para fazer do sertão um mar de cana

Desta vez, o sertão vai virar mar. De cana-de-açúcar. Cinco projetos de irrigação administrados pelo governo federal ao longo do rio São Francisco serão convertidos no mais novo pólo de produção da matéria-prima utilizada na fabricação de açúcar, álcool e biodiesel 100% vegetal. A Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf) aposta que os aportes de grandes grupos nacionais e multinacionais na construção de novas usinas vão migrar para as áreas, consideradas as últimas fronteiras de terra barata e água abundante para a produção de cana irrigada no país. O governo também tenta atrair capital de indústrias de suco de laranja para a região. Para transformar os perímetros irrigados no novo pólo de produção de biocombustíveis, a Codevasf estima uma demanda de R$ 7 bilhões em investimentos públicos e privados. Nos últimos meses, a estatal tem se dedicado a promover "road shows" técnicos na região com investidores potenciais para mostrar o tamanho das áreas disponíveis para o plantio de cana e citros e as vantagens da produção irrigada em parceria com pequenos e médios produtores instalados nos arredores dos projetos. Os locais já foram visitados por executivos das tradings japonesas Mitsui e Itochu, da americana Cargill, da francesa Louis Dreyfus Commodities e das usinas brasileiras Coruripe (AL) e Monte Alegre (MG), além de dirigentes da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica). Todos interessados em produzir álcool para exportação. "O boom da agroenergia no mundo abriu esse imenso horizonte e vai nos ajudar a transformar as regiões sob influência dos projetos com condições melhores para os pequenos produtores", diz o diretor de Infra-Estrutura e Irrigação da Codevasf, Clementino Coelho. No rastro do "efeito etanol" provocado pelos Estados Unidos, três usinas sucroalcooleiras já estão em áreas dos projetos. Em Juazeiro (BA), a usina Agrovale produz 1,55 milhão de toneladas de cana irrigada e 53 milhões de litros de álcool. Em Jaíba (MG), o grupo Sada constrói unidade para esmagar 1,5 milhão de toneladas de cana, e o empresário mineiro Carlos Murilo toca uma planta para outras 500 mil toneladas. Somadas as áreas dos projetos Jaíba (norte de Minas), Baixio do Irecê e Salitre (norte da Bahia), Pontal e Canal do Sertão (no oeste de Pernambuco), chega-se a uma oferta potencial de 224 mil hectares prontos para a produção de cana e citros irrigados - sem contar as áreas tradicionais reservadas à fruticultura. Os perímetros são servidos por vários quilômetros de canais de irrigação, estações de bombeamento de água e infra-estrutura básica de produção - à exceção dos 112 mil hectares vinculados ao Canal do Sertão, que ainda não teve suas obras iniciadas. Na área de citros, demonstraram interesse a Citrosuco, Cutrale e a Louis Dreyfus. Na fruticultura, já sondaram os projetos algumas gigantes do setor, como as americanas Del Monte Corporation, Dole e Chiquita, além da irlandesa Fyffes, a equatoriana Noboa e a argentina San Miguel. Como argumento para atrair o capital privado aos empreendimentos parados desde 2003 ou 2004, o governo sinaliza "total prioridade" aos investimentos públicos na construção dos canais principais e nas estações de bombeamento. Os perímetros de irrigação estão incluídos no Projeto Piloto de Investimentos (PPI) e no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). E também devem ser beneficiados pelas Parcerias Público-Privadas (PPP). O Banco Mundial finaliza estudos sobre o melhor modelo a ser adotado na licitação das obras de captação da água, construção dos canais, irrigação e prestação de serviços a produtores, além do modelo ideal de concessão das terras. À espera do fim do processo para decidir sobre a participação no certame, estão três das maiores empreiteiras do Brasil - Odebrecht, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão -, além de investidores externos, como o governo da Líbia. Ao mesmo tempo, o emaranhado de siglas, a complexidade jurídica e a lentidão comum em processos que envolvem o Estado provocam dúvidas nos potenciais investidores. "Temos que estudar muito bem antes de tomar qualquer decisão. É um processo demorado", afirma o diretor vice-presidente da Itochu Brasil, Tatsuya Hirota. Em companhia de outros três executivos da trading japonesa, Hirota visitou os cinco projetos há cerca de dez dias. A empresa quer construir uma planta de US$ 50 milhões para processar 2 milhões de toneladas de cana e exportar a álcool ao Japão, onde é dona de dois mil postos de combustíveis. Mas não quer administrar a área agrícola. Por isso, busca parceiros em cooperativas e grandes grupos do setor. Estuda a formação de uma sociedade de propósito específico com outros investidores. Atrás dela, podem vir os financiamentos do Banco Japonês de Cooperação Internacional (JBIC). "Queremos participação maior na usina e menor na parte agrícola e na logística", diz Hirota. Na visita, acompanhada pelo Valor, os japoneses demonstraram desconfiança com a longa paralisia nas obras dos projetos, a deterioração de algumas instalações e a subutilização de áreas como o Jaíba - onde apenas duas das dez bombas funcionam e há 4 mil hectares sem plantio. "É preciso muito dinheiro", diz o gerente-geral de maquinário Kasuhisa Hara. Para tranqüilizar os investidores, o diretor Clementino Coelho garantiu que a conclusão do Jaíba, por exemplo, terá aportes de R$ 50 milhões até 2008. "Primeiro, temos que atrair as âncoras, estruturas a cadeia produtiva e depois retomar os projetos. Mas vamos fazer as concessões porque não temos como gerenciar", avisa. No Baixio de Irecê (BA), afirma, o governo dará contrapartida de 67% do total para garantir as obras. Dona de 230 mil hectares na região, a Odebrecht busca parceiros, diz o diretor Júlio Perdigão. *O repórter viajou a convite da Codevasf.
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