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Tilápia Toma Espaço do Couro de Boi

Empresa de Franca, no interior de São Paulo, investe na produção de sapatos e bolsas com peles de peixe Agnaldo Brito Enquanto os fabricantes de calçados de Franca, interior de São Paulo, reclamam da crise, uma pequena empresa, também do pólo calçadista, avança numa idéia nova e lucrativa: a manufatura do couro de tilápia, mais uma pele no rol dos chamados couros exóticos, ao lado do de rã, cobra, jacaré e arraia. O produto tem boas vantagens comparativas: é cotada em centavos de real, encontrada em abundância nos pesqueiros da região e a exploração não está condicionada à autorizações da agência ambiental, o Ibama. A atividade começa a prosperar em Franca, estimulada pelo interesse de consumidores por produtos baseados em pele de peixe. O negócio já criou uma pequena cadeia industrial na região, que cruza do beneficiamento da pele à confecção de artigos. O ganho econômico é expressivo. Um produto com pele de tilápia, feito de forma artesanal, obtém uma remuneração entre 30% e 100% superior na comparação com artigos similares produzidos com couro bovino, variando o produto. Edson Pereira Nunes é engenheiro químico de um dos curtumes de Franca, o Quimifran, um dos maiores do pólo. Além disso, converteu-se em empresário. Criou no curtume para o qual trabalha um espaço onde cuida do curtimento da pele de tilápia. Foi neste ano, em janeiro, que Nunes – depois de dominar a técnica de curtimento da pele de peixe – montou a Claudia Nunes, nome da esposa e da grife, que assina as sandálias, as bolsas e os chapéus feitos com pele de tilápia. Os 400 quilos de couro de peixe curtidos mensalmente já não são suficientes para atender a procura. Há demanda para mais. Por isso, Nunes se prepara para duplicar a produção de couro de tilápia nos próximos meses e sonha com o ano de 2007, quando pretende alcançar um volume de duas toneladas de peles produzidas mensalmente. “Demanda há, apenas não tenho como atender tanta procura”, diz. O primeiro desafio é o de encontrar a pele. Para dar perenidade ao fornecimento, Nunes fechou um acordo com quatro pesqueiros da região de Franca. O que era lixo virou matéria-prima para a confecção de produtos. Agora, já negocia com pesqueiros de outras cidades do Estado de São Paulo para obter o couro. Compra peles por centavos e as vende como bolsas que podem chegar ao varejo a preços de R$ 250. INVESTIMENTO A estrutura de produção também deve ser alterada nos próximos meses. A manufatura do couro pronto exigirá a criação de uma estrutura verticalizada, que vai do processamento da pele à confecção final dos produtos e comercialização no mercado. O aumento da demanda dos artigos produzidos pela empresa determina a expansão da produção de couro. Nos próximos anos, a fábrica Claudia Nunes planeja produzir pelo menos 100 pares de sandálias feminina e sapato masculino por dia. A produção de sapatos alinha a manufatura do couro de tilápia à tradição calçadista de Franca, onde está o maior pólo de calçados masculinos do País. Ainda é a única empresa a investir na criação de uma cadeia industrial baseada em couro de tilápia. A empresa produz cerca de 500 pares de calçados femininos por mês. São mais 100 bolsas feitas a cada mês, além de aproximadamente 150 chapéus com detalhes de pele de peixe. “O que produzo, vendo”, afirma. Logo depois das festas de fim de ano, a pequena Claudia Nunes apresentará as criações em mercados maiores como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Líder do segmento de peles exóticas enfrenta crise A Visão Rara, empresa com sede em Goiânia, trabalha com peles exóticas, entre as quais o couro de tilápia, há 15 anos. Desenvolve coleções, cria novidades, exporta. Mas depois de uma década e meia, acha que a atividade – basicamente artesanal – enfrenta uma situação paradoxal, de notoriedade e desprezo. A maior do ramo no Brasil viu a receita cair em 2005. O plano de expansão, planejado no final do ano passado, foi abortado. Agora, a situação levará a empresa a aplicar uma forte redução de custos em 2006. O trabalho especializado, que chama a atenção de clientes internacionais, não vive imune aos problemas macroeconômicos. Numa pequena empresa as questões tributárias e as dificuldades de acesso a capital barato são sempre um tormento. “Digo que conseguimos muito respeito por criar, produzir e vender produtos tão particulares e especiais. Mas 15 anos depois, gostaria de ter mais dinheiro do que o respeito que tenho hoje”, desabafa Eponina Fleury, sócia da Visão Rara. A situação cambial tirou a empresa do mercado externo. O custo do capital compromete planos de investimento. O faturamento já foi maior, mas neste ano se acomodará em R$ 600 mil, pouco para o tipo de negócio. A Visão Rara compra o couro que utiliza e acha que a cadeia produtiva com este tipo de pele poderia ser muito mais rentável do que é, principalmente se houvesse algum esforço em atrair os ribeirinhos espalhados por vários cantos do País. A.B.
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