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São Paulo: trigo caro já faz moinho brasileiro importar do Canadá

Saindo da origem a US$ 190 por tonelada (o preço de mercado no Canadá é US$ 222), o trigo deve chegar ao Nordeste a cerca de US$ 268, devido ao custo de frete, à tarifa de 25% do frete para a Marinha Mercante e à Tarifa Externa Comum (TEC) de 10% que incide sobre o trigo de fora do Mercosul. O trigo argentino está chegando ao Nordeste a mais de US$ 300.

Importar da América do Norte será a única saída para a maior parte dos moinhos brasileiros, mas cada um adotou suas estratégias para minimizar o impacto da alta no custo da matéria-prima. O Moinho Pacífico alongou seus estoques em cerca de um mês, mas há empresas que dizem ter trigo armazenado até outubro. O Moinhos Vera Cruz está investindo R$ 1 milhão em uma nova unidade fabril que vai agregar valor à farinha para evitar a disputa no mercado da commodity.

Os preços na Argentina estão elevados por conta do bloqueio de novos registros de exportação, imposto pelo governo local desde março. No cenário internacional, a tendência altista é forçada pelas secas na Ucrânia, na Rússia e na Austrália e pela perda de área para o milho nos Estados Unidos. Além disso, o trigo tende a acompanhar a alta dos preços do milho, uma vez que os dois produtos substituem um ao outro na composição de rações e a demanda de milho para a produção de etanol não pára de crescer.

O preço do trigo em São Paulo fechou a semana passada a R$ 570 a tonelada, cerca de 38% mais que no mesmo momento do ano anterior. Em dólar, a alta foi de mais de 60%, mas o fortalecimento do real minimizou o impacto, segundo o analista especializado Élcio Bento, da consultoria Safras & Mercado.

As remessas canadenses que estão a caminho do Brasil foram beneficiadas pelo desconto do Wheat Board, mas o Nordeste está muito próximo de pagar mais barato pelo trigo da América do Norte do que pelo argentino, mesmo pelo preço de mercado. Nas contas de Bento, o trigo norte-americano que sai hoje do Golfo do México por US$ 208 a tonelada chega ao Nordeste por US$ 305, apenas US$ 2 a mais que o produto comprado na Argentina, por até US$ 245.

A Argentina tem apenas mais 1,5 milhão de toneladas para exportar e mesmo que todo esse volume viesse para o Brasil, o País ainda precisaria importar 1,3 milhão de toneladas da América do Norte, segundo Bento.

Busca de estratégias

"O problema de alongar os estoques é ter capital de giro disponível, porque os moinhos aplicam seu caixa nas vendas de farinha a prazo", diz o presidente do Moinho Pacífico, Lawrence Pih. Ele conta que, a partir de julho, ele e cerca de 90% da concorrência terão de buscar trigo na América do Norte por falta de oferta ou de preços atraentes na Argentina. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria do Trigo do Rio Grande do Sul (Sindustrigo-RS), Cláudio Furlan, a maior parte dos moinhos trabalha só com estoques operacionais, de 30 a 45 dias.

Mas há empresas que conseguiram fazer estoque para resistir até o início da safra brasileira, em agosto, quando a alta de preços deve arrefecer. Um industrial do Sudeste garantiu ao DCI que tem estoques até outubro, e que para isso teve que recorrer até ao aluguel de armazéns de terceiros. "Não há perspectiva de queda no preço do trigo no segundo semestre, e a safra brasileira será pequena, de no máximo quatro milhões de toneladas, para atender a demanda", explica o presidente do Sindicato da Indústria do Trigo de São Paulo (Sindustrigo-SP), Luiz Martins, que defende a retirada temporária da TEC para baratear a importação do grão.

Até o pico da safra, que começa em setembro, as cerca de 40 indústrias paranaenses devem administrar os estoques já formados, que somam cerca de 130 mil toneladas. "Até lá os preços no mercado devem acompanhar as referências internacionais e a importação deve continuar", diz o presidente do Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sindustrigo-PR), Roland Guth.

Com a administração estratégica dos estoques, a M. Dias Branco está conseguindo comprar o trigo por um preço abaixo do de mercado, aproveitando oportunidades pontuais. No primeiro trimestre, a companhia cearense pagou pela tonelada de trigo, na média mensal, US$ 184 em janeiro, US$ 178 em fevereiro e US$ 178 em março, enquanto os respectivos preços de mercado foram de US$ 191, US$ 189 e US$ 193.

O mineiro Vera Cruz também diz ter garantido o abastecimento dos clientes. "Se alguém está definindo suas estratégias agora, pode ser tarde", diz o diretor Jacques Berliner. Mas a aposta da companhia está na agregação de valor à farinha para diminuir o peso do trigo na composição de custo. "Assim fugimos também da concorrência com a farinha argentina, que é mais barata mas não tem características específicas a cada destinação", diz o executivo.

O moinho está construindo uma nova fábrica em Santa Luzia (MG), na região de Belo Horizonte, para produzir itens voltados ao mercado de alimentos funcionais e de baixo teor de açúcar e gordura. As apostas de Berliner estão no recém-lançado Komidão, uma nova massa alimentícia desenvolvida pela própria empresa. (fonte: DCI)

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