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Projeto de recuperação de nascentes do IAC traz ações inéditas para região de Campinas

“O planejamento hídrico responde à pergunta sobre qual qualidade de vida teremos para o futuro”. Com esta frase o pesquisador da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, que atua no Instituto Agronômico (IAC-APTA), Rinaldo de Oliveira Calheiros, resume o projeto de recuperação de nascentes, desenvolvido no IAC, sob a sua coordenação. A seca dos últimos quatro anos fez a população e a administração pública se atentarem para a finitude dos recursos hídricos. Faltou água por todo canto, situação que poderia ter sido evitada se os municípios tivessem estratégias de recuperação de nascentes, córregos e represas e conhecessem o potencial produtivo desses cursos d’água.
Para contribuir com a sustentabilidade hídrica na região de Campinas, o Instituto Agronômico desenvolve um projeto de recuperação físico-hídrica das bacias hidrográficas. Nova Odessa foi o primeiro município a adotar, em 2013, o projeto do IAC. Vinhedo deu início em janeiro de 2016 para saber quanto o município pode crescer, considerando a quantidade de água produzida. O projeto tramita na Agência Metropolitana de Campinas (AGEMCAMP) para envolvimento de todos os 20 municípios da RMC. “A contabilidade hídrica é intrínseca ao planejamento do município”, afirma Calheiros.
O trabalho é baseado na caracterização dos cursos d’água, diagnóstico e proposta de recuperação da meia encosta, envolvendo a mata de topo de morro, área agroflorestal e pecuária, mata ciliar e elementos hidrológicos – nascentes, rios e represas que abastecem os 20 municípios da Região Metropolitana de Campinas (RMC). 
As administrações municipais não têm, atualmente, conhecimento sobre a capacidade de produção de água do município e não têm plano de recursos hídricos. “Conhecer o volume de água produzida viabiliza planejar o desenvolvimento regional; os administradores podem calcular o quanto há e qual o potencial para ampliar a produção”, diz.
Os aquíferos — lençol freático e a água artesiana — são os armazenadores de água por natureza. Mas para contar com o funcionamento natural desses recursos são necessárias ações que envolvam os gestores públicos, a pesquisa agronômica e os agricultores. “Porque quem produz água é o meio rural, são nas áreas agrícolas que pode haver produção de água, ao se viabilizar a conservação do solo e manter a porosidade dele”, explica Calheiros.
De acordo com o pesquisador, na região Sudeste não havia a preocupação de produzir e conservar água. “A seca valorizou a água, colocando-a em seu lugar de primeira grandeza, isso vem mudando sua importância no aspecto da administração pública”, diz. O engenheiro agrônomo é taxativo. “Em São Paulo, quem tem condições de contribuir nesta área é o IAC, através de desenvolvimento e sistematização de tecnologias que resgatem esse processo de forma adequada”, afirma.
Para ele, as práticas conservacionistas e o manejo de solo podem aumentar a permeabilidade do solo, que irá aumentar a absorção da água da chuva. Assim é possível armazenar mais água nesse depósito natural, regularizar as vazões das nascentes e o fluxo de base que, juntos, irão perenizar e regularizar as vazões dos rios, aumentando a disponibilidade de água na época das secas e reduzindo o risco de enchentes na época das chuvas.
Quando há redução do volume de chuvas, como a registrada desde 2012, as cidades ficam sem água porque seus reservatórios estão danificados. “Nossa região deveria suportar relativamente bem os quatro anos de seca ocorridos, mas não suporta por conta desses problemas de armazenamento natural de água nas nascentes, córregos e represas”, considera.
Para o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Arnaldo Jardim, o resultado desse cenário são os racionamentos. “O impacto é direto na falta de água – porque a represa perde capacidade de armazenamento. Como instituição de pesquisa, nosso papel é criar soluções para reduzir esse tipo de problema, como orienta o governador Geraldo Alckmin”, afirma.
O projeto de recuperação desenvolvido pelo IAC prevê a caracterização de nascentes, córregos e represas, o diagnóstico desses espaços e a proposta de medidas mitigatórias e corretivas. Além de estratégias voltadas ao aumento da produção de água, o trabalho do IAC também envolve planejamento de riscos e segurança hídrica.
A água brota nas nascentes, onde também ficam concentrados os impedimentos para produção hídrica, que em sua maioria resultam da ação humana, dentre elas a atividade agrícola. A agricultura atrai para si a imagem de grande usuária de água, mas o que poucos sabem é que ela também reúne capacidade ímpar para contribuir com o aumento da capacidade de produção hídrica, pela natureza dos processos agrícolas.
O pesquisador explica que nas áreas de campos agrícolas é possível aumentar a produção de água, por meio de ações de manejo de solo. São técnicas para ampliar a capacidade de infiltração do solo e, consequentemente, a absorção de águas das chuvas, método que contribuir para aumentar a quantidade de água armazenada naturalmente nos lençóis freáticos. O manejo também se destina a reduzir a erosão do solo a fim de reduzir o arraste de camadas de terra para dentro das nascentes, rios e represas, provocando-lhes assoreamento.
O pesquisador afirma também que a má condução dos procedimentos de controle químico nas lavouras pode levar à contaminação do lençol freático, onde fica armazenada a água das chuvas. Daí a relevância de os controles de pragas e doenças serem feitos de acordo com as instruções técnicas, para evitar desperdícios e contaminações.
Na agricultura, o consumo de água se dá por irrigação, que responde por cerca de 80%, e dessedentação de animais, responsável pelo restante. “O capim faz evapotranspiração, portanto ele usa água, mesmo quando não há irrigação”, explica. Vale ressaltar que parte da água consumida pela agricultura retorna ao ambiente por meio dos ciclos de evapotranspiração.
Considerando uma bacia hidrográfica, no Estado de São Paulo, a agricultura usa cerca de 70% do volume, a indústria consome em torno de 10% e o restante segue para abastecimento público. O IAC fez, em 2014, o primeiro levantamento de irrigação em São Paulo, encomendado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAAE). “A irrigação é a maior consumidora de água em 20 das 22 Unidades de Gerenciamento de Recursos Hídricos (UGRH) existentes no Estado”, afirma Calheiros. As duas exceções são as bacias do Alto Tietê e do Piracicaba-Capivari-Jundiaí (PCJ).
Nos municípios que adotam o projeto do IAC, é verificado o grau de degradação dos cursos d’água, tanto em relação à cobertura vegetativa protetiva como em relação ao assoreamento e erosão, além de avaliar a qualidade da água. Feitas essas caracterizações, iniciam-se as recomendações de medidas.
De acordo com o pesquisador do IAC, na caracterização verifica-se também o grau de proteção física – por exemplo, se há gado pastoreando e pisando as nascentes, impactando-as. “Tudo isso faz com que reduza a disponibilidade de água nos municípios”, resume.
“Os sedimentos vão cobrindo o fundo das nascentes, onde brota a água, então o assoreamento impede a produção, a nascente perde a capacidade de produzir água porque o fundo está assoreado”, completa.
Nos córregos ocorre o mesmo processo. Nas represas, o assoreamento reduz a capacidade de armazenamento de água porque os sedimentos reduzem a profundidade do reservatório. “Uma represa que tinha quatro metros de profundidade acaba ficando com um metro e meio”, afirma o pesquisador do IAC.
Todas essas situações são encontradas na região de Campinas e no Sistema Cantareira, por exemplo. “Na RMC, a represa de Salto Grande está toda comprometida nesse sentido”, diz o pesquisador.
Ao apresentar o projeto para as administrações, Calheiros mostra as fragilidades do município com relação ao fornecimento de água e quais ações podem ser adotadas para torná-lo autossustentável do ponto de vista de produção e armazenamento hídricos. “É possível de um ano para outro duplicar a disponibilidade hídrica do município por meio de estratégias de recuperação ambiental”, afirma. Uma ação simples e que dá resultado, por exemplo, é a desobstrução das nascentes, que no projeto são identificadas e diagnosticadas. “No solo, os sedimentos levados vão obstruindo as surgências, vão tamponando as nascentes”, explica. A retirada desses sedimentos faz aumentar a produção de água.
Pioneirismo
Nova Odessa é o primeiro município na RMC a adotar o projeto desenvolvido pelo IAC. O início dos trabalhos foi em 2013. Lá, todas as nascentes têm algum grau de degradação, segundo Calheiros.
“O município é autossuficiente em água, mas a população ficou sem água na seca porque as microbacias estavam degradadas. Portanto, o município não é autossustentável”, avalia. A estratégia proposta pelo IAC deverá livrar Nova Odessa da dependência do Rio Atibaia ou do Sistema Cantareira. “Porque o volume de água foi aumentado e vai ficar armazenado no lençol freático, com essa reserva no solo haverá disponibilidade mesmo em período de seca”, diz. Calheiros explica que a estratégia de aumentar a capacidade de infiltração de água no solo é a forma natural de armazenamento.
Nova Odessa tem também problema de segurança porque a Represa dos Lopes, responsável por 40% do abastecimento municipal, tem sua nascente próxima à rodovia Anhanguera, onde há despejo de água pluvial e, em caso de acidente com carga tóxica, pode contaminar a nascente. Esta situação requer plano de contingência de risco de acidentes, segundo o pesquisador.
Por Carla Gomes (MTb 28156) – Assessora de imprensa – IAC

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