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Projeto da Secretaria de Agricultura combate pesca fantasma e reinsere o resíduo na cadeia produtiva

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio do Instituto de Pesca (IP-APTA), vem desenvolvendo projeto de pesquisa para enfrentar um problema grave ao ambiente: a grande quantidade de petrechos de pesca perdidos, abandonados ou descartados nos rios e no mar. Utensílios como redes, linhas, anzóis e boias frequentemente são perdidos - devido ao mau tempo, pesca ilegal, falhas nas operações de pesca -, ou descartados incorretamente nos ecossistemas aquáticos pela atividade pesqueira e causam poluição e prejuízo econômico, bem como o sofrimento e morte dos animais destes ambientes. Além de desenvolver metodologias para retirá-los da água, a pesquisa vem buscando soluções para trazer esta grande quantidade de materiais de volta ao ciclo produtivo com a elaboração de novos produtos por meio da ecoinovação.

A pesca fantasma pode ser entendida como a capacidade que um petrecho de pesca perdido no ambiente aquático tem de continuar a capturar ciclicamente os animais. É um problema de escala mundial e causa grande impacto também nas águas brasileiras, sobretudo marinhas. De acordo com a UNEP (programa das Nações Unidas voltado para a preservação ambiental) cerca de 670 mil toneladas de petrechos de pesca perdidos ou abandonados vão parar nos rios, mares e oceanos anualmente. A cada 25 toneladas de pescado retiradas do mar, uma tonelada de petrechos são abandonados no oceano.

“O IP já está atento a isso há mais de uma década – mesmo quando quase ninguém se preocupava a respeito do plástico nos oceanos -, cumprindo a função da pesquisa científica de estar sempre um passo adiante do problema, mostrando proatividade”, diz o pesquisador do Instituto, Luiz Miguel Casarini. Ele lembra que, mesmo quando não ocasiona a pesca fantasma, esse material é problemático, pois vai se fragmentando progressivamente (durante décadas ou séculos) na forma de microplásticos de segunda ordem, que contaminam os animais marinhos e podem chegar, via consumo, aos humanos.

Segundo o pesquisador, no Brasil, essa situação é bastante disseminada e abrange desde populações em localidades remotas até a pesca industrial. “Há uma corresponsabilidade: parte deste material é perdida por ausência de melhores práticas a bordo (muitas vezes, associada à deficiência na capacitação e orientação), assim como os próprios fornecedores que importam ou produzem panos de redes de pesca e demais materiais deveriam ter canais de comunicação mais eficientes com seus consumidores”, afirma, ressaltando que a pesca ilegal é um agravante deste cenário. Para ele, há a necessidade de um programa de prevenção consistente visando promover a destinação ambientalmente adequada para os materiais de pesca (em sua maioria, feitos de plástico), o que envolveria tanto o poder público quanto a iniciativa privada. “Não existe uma logística reversa para recolhimento deste material”, aponta.

Inovação para um mar mais azul

Tendo este cenário preocupante em vista, Casarini e uma equipe de técnicos e pesquisadores (em uma parceria entre IP e Fundação Florestal do Estado de São Paulo) passaram a procurar meios de prevenir e mitigar o problema. Assim, surgiu o projeto Petrechos de Pesca Perdidos no Mar (saiba mais neste link). “No nosso trabalho, como instituição de pesquisa, a primeira coisa necessária foi conseguir entender o que estava acontecendo. Detectamos que mesmo dentro de Unidades de Conservação, onde a atividade pesqueira é proibida, havia quantidade significativa de petrechos fantasmas, muitos deles realizando a pesca fantasma”, noticia o pesquisador. Isso, conta, deu uma dimensão do tamanho do problema. “Foi um sinal de que era preciso pesquisar mais a questão”.

Para agir no enfrentamento da situação, a equipe passou a utilizar recursos tecnológicos avançados visando mapear os pontos onde eram encontrados os artefatos. “Foram desenvolvidos projetos de pesquisa voltados à detecção, utilizando sonares de varredura lateral, câmeras em asas de reboque e robôs submarinos (ROV), para posterior aplicação de técnicas de remoção destes materiais”, explica Casarini. “A gente trabalhou próximo à costa, mas também a 40 km de distância, a uma profundidade de até 40 m”, contextualiza. Por meio dessa parceria, aproximadamente seis toneladas de redes, fios de nylon e similares já foram removidos dos ecossistemas marinhos.

Uma vez trazido para fora d’água, o artefato é lacrado e realiza-se um trabalho minucioso de inspeção do material e de investigação sobre seu histórico: origem, composição, se oriundo de pesca recreativa, artesanal ou industrial. Após todo esse processo, no entanto, o desafio se torna o que fazer com esses itens. Casarini comenta que a indústria não tinha muito interesse no material em estado bruto, uma vez que apresentava muitas incrustações e impurezas. “Foi necessário desenvolvermos outra etapa para trabalhar com esse material sem ter um gasto energético e emissão de carbono muito altos. Pensamos em como poderíamos desenvolver um produto que fosse ecologicamente aceito, tivesse uma pegada ecológica melhor”, esclarece o pesquisador. Conforme explica, a solução veio de uma parceria feita com o Senai e com a indústria para reprocessar a poliamida do nylon, o principal componente presente. “Conseguimos desenvolver um produto que é praticamente pura rede, sem aditivos, e conseguimos desenvolver alguns designs de produtos upcycling, que são aqueles com alto valor ambiental agregado”, pormenoriza o pesquisador.

O pesquisador do IP destaca que há um crescente número de consumidores que se preocupam com a origem dos produtos que adquirem e os aspectos ambientais relacionados à sua produção. Neste contexto, surge o “consumidor azul”, que é aquele que prefere consumir produtos responsáveis do ponto de vista do uso dos recursos marinhos. “Estamos trabalhando pesadamente na questão da rastreabilidade, o que temos feito aplicando conceitos de inteligência artificial para reconhecimento das imagens em micrografia do produto, para que o consumidor tenha transparência da história que ele transporta. Um material que foi retirado do fundo do mar, que estava impactando animais como tartarugas e peixes, que era lixo, ganha um novo significado”, celebra Casarini.

O princípio do projeto também é a ecoinovação, que consiste em utilizar a tecnologia para gerar produtos ambientalmente corretos, usando conceitos como o eco-design. “O plástico, uma vez manufaturado, é praticamente eterno e precisa ser mantido numa economia circular, não pode ser simplesmente abandonado”, problematiza o coordenador. “A ideia é desenvolver a pesquisa e produzir ecoinovação aplicada às redes fantasmas. Assim, fechamos o ciclo de ponta-a-ponta, buscando uma solução local pensando no aspecto global desse problema que afeta os oceanos de todo planeta”, finaliza Casarini.

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