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Os 100 anos da imigração japonesa e da edificação do Museu de Pesca

Por Antônio Carlos Simões Museu de Pesca de Santos e Imigração Japonesa: 100 anos de história. A edificação do Museu de Pesca e o primeiro desembarque de imigrantes japoneses em solo brasileiro ocorreram em 1908. No próximo dia 8 de novembro, o Museu se transformará em palco de homenagens à colônia japonesa e à influência de sua cultura no desenvolvimento da cadeia de produção do pescado no Estado de São Paulo. Outra instituição que também completa 100 anos é o Instituto “Dona Escolástica Rosa”, inaugurado em 1º. de janeiro de 1908, cujo prédio se localiza bem próximo ao Museu de Pesca. Esse Instituto surgiu como uma entidade de benemerência, destinada a abrigar meninos pobres e órfãos da cidade, que deveriam receber educação, cultura e uma profissão, conforme determinava o testamento de João Octávio dos Santos, doador da área e idealizador do projeto institucional. A obra foi projetada pelo escritório do doutor Ramos de Azevedo, engenheiro de grande prestígio junto à burguesia paulista. A chegada dos imigrantes No dia 18 de junho de 1908, os primeiros imigrantes japoneses desembarcaram na cidade de Santos (SP). Eles vieram para lavrar a terra em fazendas de café do interior paulista. Porém, ainda no decorrer de 1908, muitos deles retornaram a Santos, desistindo da Fazenda Canaã e da ilusão difundida pela propaganda da “terra prometida”. Foram os integrantes de aproximadamente oito famílias procedentes da ilha de Okinawa que se instalaram em Santos e iniciaram a história da Imigração Japonesa que completa um centenário, atraídos pela agradável maresia que exalava das praias da cidade, que lembrava a terra natal à beira-mar. Recém-chegados, os japoneses habitaram moradias improvisadas erguidas na periferia de Santos, humildes barracos com telhado de zinco, onde iniciaram o cultivo de hortaliças, vendidas nas ruas pelas mulheres, em cestas equilibradas na cabeça. Os imigrantes precisavam trabalhar para sobreviver e enviar dinheiro ao Japão, para saldar dívidas contraídas para a viagem ao Brasil e também para ajudar a família. Outros grupos se juntaram a esses imigrantes na cidade de Santos, que contava na época com cerca de 60 mil habitantes. Com o tempo, eles foram se envolvendo em outras atividades, além da agricultura. O início da atividade pesqueira Em 1911, surgiu em São Vicente a primeira vila de pescadores japoneses, constituída de barracos com telhado de zinco, onde os moradores viviam e estocavam diariamente o produto da pesca, praticada com vara ou rede. Em Santos, Shima Tani Shi e Shimizu Yasujino Kun, provenientes de Kanagawa, foram os pioneiros da pesca brasileira. Nas horas de folga, esses pescadores levavam os patrícios em passeios pelo cais da cidade. Os imigrantes contribuíram para o desenvolvimento da atividade, ao incorporar técnicas pesqueiras e conhecimento de navegação que resultaram no aumento da produção. Assim, construíam-se embarcações com base em projetos trazidos do Japão, que iam aumentando de porte para acomodar melhor o pescado. Também as redes seguiam modelos japoneses, inéditos no Brasil. Inicialmente, a pesca processava-se com pesadas redes de algodão, de fácil destruição pela ação da água salgada e cujo formato permitia o arrasto apenas na beira da praia. Para melhorar a resistência das redes, os japoneses as banhavam, após a confecção, na água onde ferviam cascas de plantas de mangue. Outra inovação foi a montagem de “varais” para pendurar as redes, permitindo a visualização do formato e do caimento, como se estivesse no mar; assim, eles percebiam a necessidade de eventuais reparos e a adequação do formato da malha. Além da inovação no formato da malha das redes, os japoneses introduziram as bóias de vidro para a flutuação e as portas de ferro para abrir a rede, desenvolvimento tecnológico que propiciou o aumento da produtividade. Evolução do setor Inicialmente, o pescador imigrante japonês trabalhava sozinho, vendendo ele próprio o pescado, ou então era empregado, como ‘camarada’, em barcos pesqueiros brasileiros, recebendo diárias ou salários mensais. Posteriormente, ele passou a arrendar barcos e redes e, a partir de 1923, naturalizou-se brasileiro para poder obter licença oficial para pescar. Com o auxílio de contribuições individuais, adquiriu redes de arrasto para utilização comunitária. Em 1932, fundou-se a Cooperativa Pesqueira de Santos, integrada por 63 cooperados. Os japoneses que conseguiram se capitalizar suficientemente tornaram-se armadores de pesca, adquirindo embarcações de maior porte, dotadas de motor diesel e alguns deles, inclusive, distribuíam o pescado utilizando seus próprios caminhões frigoríficos. Entretanto, durante a Segunda Guerra Mundial, os japoneses foram obrigados a abandonar o litoral, por ser este considerado zona estratégica e de segurança nacional. Terminada a Guerra, alguns imigrantes retornaram a seu país e outros, em 19 de maio de 1953, associados a brasileiros, fundaram a Cooperativa de Pesca Nipo-brasileira e, em 23 de julho de 1957, a Cooperativa de Pesca Atlântica de Santos, evidenciando-se nesse período a pujança do setor. Os japoneses também se destacaram na pesca oceânica brasileira em razão da vinda da empresa Taiyo ao Brasil para atuar na captura de baleia e atum. Em 1986, com a proibição da pesca da baleia, a atuação da Taiyo concentrou-se na pesca do atum. Foi quando se fundou a Taiyo do Brasil. Sob a influência dos japoneses, uma espécie não conhecida até então foi denominada “Me-Kajike”, que, por corruptela, virou “Meka” e hoje “Meca”. Atualmente, há grandes empresários de origem japonesa na atividade pesqueira, incluindo, por exemplo, armadores de pesca e proprietários de instalações para resfriamento e processamento de pescado e de frotas de caminhões frigoríficos. Prédio do Museu O Museu do Instituto de Pesca (IP-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, tem finalidade científico-cultural e objetiva a difusão de conhecimentos originados do estudo do ambiente aquático e da tecnologia aplicada na exploração racional dos recursos marinhos e de águas continentais. É sua função ainda desenvolver atividades educativas não formais, com o intuito de criar ou descobrir e estimular mentalidades dirigidas à correta utilização dos recursos naturais, incluindo os recursos pesqueiros. O Museu tem também outro importante papel, ao se relacionar com a Cidade de Santos desde o início do período desenvolvimentista. O prédio, construído no local de uma fortificação datada do século XVIII (Forte Augusto), abrigou inicialmente a Escola de Aprendizes-Marinheiros, depois uma Escola de Pesca e, finalmente, um dos primeiros Institutos de Pesquisa na Baixada Santista. E é muito relevante manter vivas essas referências ao passado, mostrando sempre para a comunidade a importância do prédio do Museu como patrimônio histórico e cultural desde sua origem. O grande edifício que sedia o Museu tem estilo eclético, característico da época em que foi construído (1908), pois reflete a influência de diferentes estilos arquiteturais clássicos. Apesar de sua importância histórica, apenas em setembro de 1986 iniciou-se um processo para tombamento do imóvel junto ao CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) do Estado de São Paulo. Esse processo foi concluído em 1998, quase treze anos depois, com o tombamento oficial do imóvel, através da Resolução SC-40, de 2 de abril de 1998, publicada no Diário Oficial de 7 de abril de 1998. Vínculo Atual do Museu O Museu do Instituto de Pesca é importante como veículo de divulgação técnico-científica na área da pesca, da aqüicultura e da biologia e ecologia aquáticas, apoiando a atuação formadora das escolas e atendendo ao turista, funções que assumem maior importância ainda em razão do reduzido número de entidades do gênero existentes no País. Em vista disso, muitos costumam considerá-lo como uma instituição ligada a alguma secretaria de turismo, desconhecendo o fato de ele pertencer ao Instituto de Pesca, órgão de pesquisa científica em recursos aquáticos renováveis (pesca e aqüicultura), que integra a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA). O Museu adquiriu “status” de unidade funcional apenas em abril de 1969, quando o antigo Instituto de Pesca sofreu uma reestruturação. De Forte a Escola de Aprendizes-Marinheiros A história do terreno onde hoje está instalado o Museu começa com o antigo Forte Augusto (fortificação que entrou em atividade em 1734 para defesa de uma das entradas do estuário de Santos). Em 1893, o Forte Augusto sofre ataques, acaba em ruínas e é desativado naquele fim de século, sendo então aproveitado apenas como depósito de material bélico. Entretanto, devido à posição privilegiada à beira-mar, o terreno da antiga fortificação da Ponta da Praia foi apontado como local ideal para a construção da Escola de Aprendizes-Marinheiros do Estado de São Paulo, organizada pelo Ministério da Marinha, que funcionou ininterruptamente até 1931, quando foi extinta por ordem do Governo Federal. O prédio cedeu então o lugar à Escola de Pesca (oriunda do Guarujá) que, por sua vez, em 1932, recebeu o nome de Instituto de Pesca Marítima. A História do Instituto de Pesca Marítima de Santos A Escola de Pesca funcionou primeiro em um prédio alugado no Guarujá, na praia das Astúrias, no local onde hoje está instalada a Colônia de Férias da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo. Seus trabalhos tiveram início naquele Município no segundo semestre de 1928. Contudo, somente em 28 de janeiro de 1930 foi oficialmente inaugurada. Em 31 de dezembro de 1932, transferiu-se para Santos, instalando-se na Avenida Bartolomeu de Gusmão nº. 192, no prédio da antiga Escola de Aprendizes-Marinheiros. Incumbida inicialmente do ensino de práticas de pesca, a Escola recebeu em 1932 novos encargos, competindo-lhe a partir daí também o “fomento e a economia da pesca”, passando a se denominar Instituto de Pesca Marítima. Foi assim que, através do Decreto Federal nº. 22 725, de 18 de maio de 1933, o atual prédio do Museu foi cedido pelo Ministério da Marinha à Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo para nele serem instalados o serviço de pesca no Estado e o Instituto de Pesca. Suas dependências e anexos foram cedidos para esse único e exclusivo fim, não podendo, sob pretexto algum, ter destino diferente (grifo do próprio Decreto), com suas atribuições ampliadas em 1935, introduzindo-se as questões ligadas ao estudo da biologia de seres aquáticos, à tecnologia de pesca e à fiscalização da atividade pesqueira. Como surgiu o Museu Um Gabinete de História Natural, ligado à então Escola de Pesca, é que dá início à história do Museu de Pesca. O antigo Gabinete veio do Guarujá e foi crescendo lentamente, ainda que sem uma linha definida de trabalho. Na época, o acervo se constituía de material reunido indiscriminadamente, resultante de doações e alguns trabalhos elaborados por funcionários da própria repartição. A grande transformação do Gabinete ocorreu em 1942, com a montagem do esqueleto de uma baleia que havia encalhado em uma praia do Município de Peruíbe no litoral sul do Estado de São Paulo. Para a exposição do esqueleto, derrubaram-se as paredes divisórias de três salas. Outras dependências do Gabinete também foram ampliadas, reunindo coleções de conchas, corais, peixes, aves marinhas etc. Nesse mesmo ano, o Gabinete ganhou extra-oficialmente a denominação de “Museu”. Em 6 de fevereiro de 1950, foi constituído um legítimo Museu de Pesca, relacionado diretamente às finalidades do órgão a que estava subordinado, com objetivos técnicos, culturais e turísticos. Com a recuperação de algumas peças danificadas e o reaproveitamento de outros objetos, principiou-se a ampliação do acervo, dirigida para as coisas do mar. Assessoria de Comunicação 11 5067-0424 (José Venâncio – Gabinete da APTA) 13 3261-5474 (Antonio Carlos – Instituto de Pesca)
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