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Micotoxinas prejudicam o rendimento do gado de corte e são um inimigo oculto do produtor, segundo pesquisa da APTA

Substâncias produzidas por fungos podem estar presentes na ração animal e trazer prejuízos; boas práticas agrícolas, armazenamento correto e adsorventes na dieta são as melhores opções

Micotoxina é uma palavra pouco conhecida da população, porém não há quem esteja livre do contato com ela. Produzidas por fungos, não apenas um, mas vários tipos diferentes de micotoxinas são encontrados em diversos alimentos consumidos pela população. Algumas desde o campo, outras a partir das etapas de armazenamento.

Como o nome sugere, micotoxinas são compostos químicos tóxicos, que podem causar danos aos seres humanos e animais. Um dos tipos mais estudados, as aflatoxinas estão entre as substâncias naturais mais cancerígenas conhecidas. Tendo isso em conta, cada vez mais a cadeia produtiva de alimentos busca implementar medidas que minimizem a presença destas substâncias na alimentação.

O impacto das micotoxinas sobre o gado de corte, no entanto, tem sido pouco estudado. “Acreditou-se, por muito tempo, que, pelo fato de algumas micotoxinas serem metabolizadas no rúmen, o animal não seria afetado”, explica Letícia Custódio, pesquisadora de pós-graduação da Unesp-Jaboticabal que desenvolve projeto na Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, e uma das pioneiras no estudo do impacto da presença de micotoxinas na ração na saúde e desempenho do gado de corte. “Essa metabolização realmente ocorre, mas isso vai depender da quantidade que o animal está consumindo e qual micotoxina está presente, porque existem algumas que não são metabolizadas no rúmen”, complementa.

           Em sua pesquisa de doutorado, Letícia, que é zootecnista, diz ter encontrado 100% das amostras de rações avaliadas contaminadas com micotoxinas, sendo 7% com alta contaminação. Como mostram os resultados, é praticamente impossível uma dieta para confinamento sem contaminação, ainda que mínima, por micotoxinas, isso porque o fungo está naturalmente presente nas matérias-primas utilizadas. No entanto, “é importante que essa contaminação esteja situada em um nível baixo, para diminuir ao máximo os danos causados pelas substâncias”, explica a pesquisadora.

Malefícios aos animais, prejuízo para o produtor

A contaminação por micotoxinas é nociva para a saúde dos animais, afetando sistema imune, rins e fígado e atrapalhando a digestão e o metabolismo dos bovinos. Além da diminuição da qualidade de vida do animal, isso impacta diretamente em seu potencial produtivo, passando a ganhar menos peso quando comparado a um animal que se alimenta com ração não-contaminada. Como resultado, o produtor tende a sair no prejuízo. Letícia diz que o grau das perdas ao pecuarista que desconhece, ou não se preocupa com as micotoxinas vai depender da quantidade e do tipo de toxina que o gado ingere cotidianamente e não deve ser subestimado. “Nos meus experimentos, mesmo com uma contaminação considerada baixa, observamos uma queda de 200g de ganho médio diário por animal - o que equivale, no final do processo produtivo, a 26 kg a menos no peso corporal do animal. Isso é muito impactante!”, reforça a zootecnista.

Segundo Letícia, no que diz respeito à saúde humana, são surpreendentemente escassos estudos que avaliem a possível presença de micotoxinas ou seus metabólitos na carne de bovinos. Portanto, são necessários mais estudos para afirmar se a carne do animal que consumiu uma dieta contaminada seria prejudicial à população.

Boas práticas agrícolas e inovação são o caminho

Como evitar que esses prejuízos aconteçam, estando as micotoxinas tão difundidas, tem sido o objetivo de muitas pesquisas científicas. O que se pode garantir, de acordo com Letícia, é que as boas práticas de manejo agrícola e o armazenamento correto das matérias-primas são essenciais: os fungos tendem a se multiplicar muito mais rapidamente em grãos úmidos e danificados. Práticas como a colheita tardia e a armazenagem incorreta promovem um ambiente favorável para muitas espécies destes organismos se desenvolverem. Há, por outro lado, pesquisas com híbridos de plantas mais resistentes aos fungos.

Uma inovação que tem se mostrado bastante eficiente são os adsorventes, substâncias de origem sintética ou natural que se ligam às micotoxinas e impedem que sejam metabolizadas pelos animais, podendo ser misturadas à ração já formulada. “É uma estratégia para quando o alimento já está contaminado ou você não sabe”, pontua Letícia Custódio. Para a zootecnista, compensa para o produtor utilizar o adsorvente como uma forma de segurança. “Pode ficar mais caro fazer a análise do que usar o adsorvente. A gente se preocupa com tanta coisa para atingir o rendimento do animal e a micotoxina é algo que pode atrapalhar muito esse objetivo. Ela rouba o desempenho do seu animal. É realmente um inimigo oculto que precisa ser controlado”, pondera.

Histórico

Os efeitos nocivos das micotoxinas foram constatados pela primeira vez em perus criados na Inglaterra. Milhares de animais morreram ao consumir farelo de amendoim importado do Brasil, na década de 1960. O motivo, provou-se, foi a contaminação por aflatoxina. Desde então, muito tem sido investigado sobre alimentos contaminados com micotoxinas e o impacto destes contaminantes na saúde humana e no bem-estar e desempenho de animais de criação. Fontes alimentícias muito utilizadas em nossa alimentação, como amendoim, milho, café e trigo, por exemplo, passaram a receber bastante atenção de agências de segurança alimentar no mundo todo. Da mesma forma, aves, suínos e gado leiteiro alimentados com estes produtos são constantemente monitorados quanto aos efeitos das micotoxinas na produção de ovos, carnes e leite. Foi provado, inclusive, ser possível a contaminação do leite por metabólitos (subprodutos da digestão) das micotoxinas ingeridas pelas vacas.

Por Gustavo Steffen de Almeida

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