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Instituto de Pesca observa peixes para avaliar a degradação ambiental

A análise dos peixes revela impactos da ação humana A presença de peixes encanta os observadores, especialmente se for ampla a diversidade de cores e formas. Silenciosos, esses seres podem dizer muito - para a ciência. É o que mostra a pesquisa desenvolvida no Instituto de Pesca (IP-APTA), da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios. O estudo busca avaliar a comunidade de peixe de riachos sob os aspectos da composição e da abundância e os impactos de ações urbanas e rurais. A pesquisa também está adaptando um método para avaliar a qualidade ambiental, tendo como parâmetro a ictiofauna. O estudo envolve a microbacia do Ribeirão Guamium, uma das oito que compõem a bacia hidrográfica do Rio Piracicaba, que abrange a região de Campinas e abastece 2,9 milhões de habitantes. O objetivo é avaliar até que ponto os diferentes usos do solo influenciam os riachos, considerando que o Guamium compreende uma região agrícola e urbana, drenando 7 mil hectares, com 17 quilômetros de extensão. “Procuramos elaborar o método para observar se alguns parâmetros da comunidade indicam degradação ambiental”, diz a pesquisadora do IP-APTA Katharina Eichbaum Esteves. Comparando com outros riachos da região, o estudo apontou que não há perda significativa de espécies – foram identificadas 38, número similar a de outros riachos. Porém, observou-se redução de algumas espécies e proliferação de outras – desequilíbrio que afeta o ecossistema. “Às vezes há espécies predadoras que se alimentam de peixes forrageiros; ao eliminar a base da cadeia alimentar a relação entre as espécies pode ser prejudicada.” João Paulo Feijão Teixeira, pesquisador e coordenador da APTA, ressalta o valor da pesquisa ao considerar que a biodiversidade tem valor intrínseco. “Não dá para quantificar a eliminação de espécies, há reflexos para o ecossistema como um todo”, diz Feijão. O Guamium insere-se em uma região agrícola, nos seus trechos iniciais, e em uma região urbana, nos trechos finais, desaguando no Rio Piracicaba. Segundo Katharina Esteves, na área urbana, onde há lançamento de esgotos no riacho, detectou-se a perda de algumas espécies e a explosão populacional de outras, que passam a ser dominantes por se adaptarem às condições. “O chamado “tambiú” adapta-se bem e representa 90% da comunidade nos pontos sob influência do esgoto doméstico”, explica a pesquisadora. Outra espécie dominante é o guarú, indicando que esses grupos apresentam tolerância à poluição, podendo ser indicativas de condições de maior degradação. O estudo, que resultou na dissertação de mestrado de Cleber Valim Alexandre no curso de Pós-Graduação em Pesca e Aqüicultura do IP-APTA, mostrou também que nos trechos de ocupação urbana há aumento de fósforo, nitrato e nitrito, indicando eutrofização, relacionada ao lançamento de esgoto. Essa condição favorece o aumento da produção de algas, grandes consumidoras de oxigênio, indicando que o meio está recebendo uma grande quantidade de nutrientes. Espécies consideradas intolerantes, como o lambari-do-rabo amarelo, ocorreram apenas nos trechos de melhor qualidade de água. Embora o Guamium passe por grande área de produção de cana-de-açúcar, nesse estudo não foi observada alteração na comunidade de peixes causada por impacto agrícola. A preservação, nesse caso, pode estar associada à presença da vegetação ripária, que protege o entorno do riacho. De acordo com Katharina Esteves, muitos são os benefícios da mata, que contribui para reduzir a erosão do solo, responsável pelo aumento de partículas de solo na água, que, por sua vez, aumenta a turbidez e prejudica os peixes que dependem de boa visibilidade para se comunicar ou para buscar abrigo. Ressaltam-se ainda os problemas de saúde causados aos peixes pela ausência da mata ciliar. “A ausência de árvores também pode aumentar a temperatura da água e mudar a estrutura da comunidade de peixes”, explica. A vegetação interfere ainda na cadeia alimentar, já que algumas espécies se alimentam de larvas de insetos, cujos adultos estão nas matas, e as folhas contribuem para a formação de material de fundo de rio, os detritos que são utilizados pelos peixes detritívoros. Bioindicadores reduzem custo de avaliação da degradação O método que utiliza bioindicadores de condição ambiental é ainda pouco usado no Brasil, mas bastante aplicado nos Estados Unidos. Dentre as vantagens da utilização de recursos bióticos como indicadores da qualidade dos ecossistemas, está o menor custo na avaliação de degradação ambiental, quando comparado, por exemplo, à análise química da água para avaliar a presença de pesticidas, herbicidas ou metais pesados. O método considera fatores como o número total de espécies, o número de espécies de vida longa, de insetívoros, de piscívoros, de indivíduos com anomalias ou doentes, dentre outras categorias analisadas. Financiado pela FAPESP, o estudo é feito em comparação com áreas de referência – ou seja, é preciso ter, dentro da mesma bacia hidrográfica, um rio impactado e outro naturalmente preservado. O problema é que, muitas vezes, não há rio em condições naturais em regiões industrializadas. “Por isso é importante estudar a biodiversidade dentro de áreas de conservação para se ter uma idéia de quais espécies ocorrem em condições naturais, sem influência antrópica”, diz a pesquisadora do IP-APTA, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento. O sistema aponta as conseqüências do problema, como a redução de espécies. “O método é de biomonitoramento, depois o estudo deve buscar as causas do problema”, diz. Esse método poderá ser adaptado para outras regiões e para a avaliação de outros organismos aquáticos, com vistas à indicação de alterações ambientais. "A tecnologia desenvolvida nessa pesquisa poderá ser aplicada em outras áreas do Estado, com a devida adaptação, e contribuir para avaliação da degradação em outras bacias hidrográficas”, afirma Feijão. Entenda o estudo Na prática, o trabalho consiste em coletar as espécies de peixes, agrupá-las de acordo com determinadas características biológicas, que vão desde a presença de doenças e anomalias até a tolerância às condições ambientais, verificando quais respondem melhor às alterações na qualidade do ambiente. A partir dessa adaptação, é possível propor a realização periódica de monitoramentos desses ambientes aquáticos. Viabiliza-se a identificação dos trechos mais impactados, da variação desses impactos ao longo do tempo e, conseqüentemente a ação dos agentes perturbadores no ecossistema.
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