cabecalho apta130219

Indústrias de suco deverão elevar produção de laranja

Com os alicerces enfraquecidos por meses de desgastantes negociações e acusações mútuas envolvendo concorrência e preços, a cadeia citrícola paulista ainda tenta remendar seus elos para aproveitar os bons preços atuais e manter sua supremacia no mercado mundial. As obras de restauração, contudo, não têm sido simples. Acusadas de cartel pelos produtores de laranja, as principais indústrias de suco do país (Cutrale, Citrosuco, Citrovita e Dreyfus) até agora não sabem como dividirão o pagamento dos R$ 100 milhões acertados com a Secretaria de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça e com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para encerrar o processo de investigação, aberto em 1999. O processo voltou à tona no início deste ano, depois de as autoridades firmarem um acordo de leniência com um ex-executivo de uma das indústrias de suco e da operação da Polícia Federal de apreensão de documentos nas empresas. Interligadas às investigações de oligopsônio na compra de laranja, as discussões sobre um reajuste emergencial dos preços de fornecimento da fruta para a produção da bebida, mediadas pelo senador Aloizio Mercadante (PT-SP), foram objeto de mais uma dezena de reuniões, ao longo de três meses, e aparentemente chegaram a um bom termo em agosto passado. Mas citricultores reclamam que nem todos os contratos de longo prazo estão de fato sendo corrigidos e temem mais desgaste no ano que vem. O reajuste dos preços recebidos foi uma demanda derivada da disparada das cotações do suco de laranja no mercado internacional, em virtude dos problemas de oferta na Flórida depois de duas temporadas seguidas de fortes furacões. Dono do segundo maior parque citrícola do mundo, depois do paulista, o Estado americano tem grande influência na formação de preços da commodity. Graças ao "fator Flórida", as cotações do suco de laranja praticamente dobraram na bolsa de Nova York nos últimos 24 meses, conforme cálculos do Valor Data. Já a tonelada do produto vendido na Europa saltou de US$ 800, em maio de 2004, para US$ 2,2 mil, no mesmo mês deste ano. A alta da laranja destinada às indústrias também foi expressiva no mercado spot paulista no período (cerca de 80%), segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Cepea/Esalq). A maior parte dos contratos de fornecimento de longo prazo, porém, ficaram para trás. Resumo: na temporada passada (2005/06), o valor da produção citrícola (incluindo apenas a venda da fruta) nacional alcançou R$ 2,47 bilhões, 20% menos que no ciclo anterior. "A defasagem contratual é o principal problema que o setor precisa resolver", afirma Margarete Boteon, pesquisadora do Cepea e uma das maiores especialistas em citricultura do país. Segundo ela, o Cepea apurou que o reajuste acertado por produtores e indústrias na Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) só está sendo cumprido à risca por uma companhia. As demais empresas, dizem fontes do mercado, estão adotando o piso de US$ 4 por caixa de 40,8 quilos acertado apenas para contratos que já venceram ou vencem este ano, muitos fixados em US$ 2,50. Nos outros casos - é comum o prazo dos contratos ser de três a cinco anos -, está mais difícil, ainda que sempre existam as exceções de praxe. Estima-se que os contratos atendem a 45% das necessidades das indústrias, que completam sua demanda no mercado spot (20%) e com a produção de suas próprias fazendas (35%). A divisão varia conforme a empresa e não são todos os citricultores que têm problemas para renegociá-los. No total, as exportações de suco absorvem 85% da produção de laranja de São Paulo, que representa 80% da oferta brasileira. Essa divisão das fontes de abastecimento, contudo, deve mudar em consequência do acirramento dos ânimos na cadeia neste ano. Citricultores e exportadores de suco concordam que a tendência de verticalização das indústrias vai se aprofundar. Ou seja, a produção própria ganhará espaço, ainda que exista um limite econômico para esse incremento. Comenta-se que a Citrosuco, do Grupo Fischer, acertou a criação de uma joint venture com um grande produtor que renderá 23 milhões de caixas por safra e abastecerá um terço de seu consumo de laranja - e ela já tem dezenas de fazendas. Procurada, a segunda maior exportadora brasileira de suco não respondeu. Flávio Viegas, presidente da Associação Brasileira dos Citricultores (Associtrus), lembra que a verticalização não começou ontem. As principais indústrias de São Paulo, diz, plantaram 2 milhões de pés de laranja por ano nos últimos 15 anos, ante uma média anual de 350 mil árvores nas duas décadas anteriores. Com isso, afirma, o número de citricultores no Estado caiu de 27 mil, em 1990, para cerca de 10 mil atualmente. Viegas admite que há espaço para a verticalização avançar um pouco mais, mas afirma que há um limite econômico para isso. Em seus cálculos, a implantação de um pomar custa entre R$ 16 mil e R$ 20 mil por hectare, sem contar o custo da terra. O custo de produção, por sua vez, chega a R$ 8 mil por hectare. Considerando-se uma produtividade de 700 caixas de 40,8 quilos por hectare, o custo pode alcançar R$ 12 por caixa - acima do valor de alguns contratos, mesmo já reajustados. "A indústria precisa do produtor, e se a verticalização avançar muito, as autoridades poderão restringi-la", acredita Marco Antonio dos Santos, presidente do Sindicato Rural de Taquaritinga e diretor da Faesp. Mas ele concorda que os problemas de relacionamento na cadeia citrícola e a boa fase de preços do segmento sucroalcooleiro são um convite à troca da laranja pela cana. José Luiz Cervato, diretor administrativo e financeiro da Cutrale - que participou de todas as reuniões de reajuste de preços com os produtores - reitera que a verticalização tem limite, mas diz que ele não foi atingido. Dona de cerca de 40 fazendas de laranja, a empresa no momento trabalha para expandir a irrigação de seus pomares.
Pin It

Notícias por Ano